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Fatos & Boatos: antibiótico sem exame em Santa Terezinha
    Três meses. Quatro consultas. Zero exames. Um paciente do posto de saúde central de Santa Terezinha de Itaipu relatou a esta coluna que frequenta a unidade desde o início do tratamento de um problema de saúde, descrito como não grave, mas persistente. Em todas as consultas, a conduta foi a mesma: receita de antibiótico. Sem pedido de exame de sangue. Sem raio-x. Sem encaminhamento. O remédio não resolveu o problema. O problema continua. E o paciente simplesmente parou de ir, convicto de que a próxima visita vai render apenas mais uma caixinha do mesmo medicamento que já provou não funcionar. A pergunta que fica é incômoda: isso é prática isolada ou é o padrão do serviço?

    Quando o tratamento vira rotina sem resultado

    Antibiótico é um recurso médico sério. Tem indicação específica, tem duração definida, e quando não resolve o problema dentro do prazo esperado, o caminho natural é revisar o diagnóstico.

    Mas o que o relato que chegou a esta coluna descreve é diferente. É uma sequência de consultas onde a conduta não muda, independente de o paciente voltar informando que o medicamento não está funcionando.

    Quatro consultas. O problema persiste. E a resposta da unidade, segundo informações em apuração, foi sempre a mesma: mais antibiótico.

    O exame que nunca foi pedido

    Em qualquer protocolo básico de atenção primária, quando um tratamento não apresenta resultado após ciclos repetidos, o passo seguinte é investigar. Um exame de sangue. Um raio-x. Algum dado concreto que oriente uma nova conduta.

    No caso relatado, isso nunca aconteceu.

    Não é questão de exigir tecnologia de ponta numa unidade de saúde básica. É questão de aplicar o mínimo do processo clínico: se o remédio não funcionou, algo no diagnóstico precisa ser revisado. E revisão diagnóstica, via de regra, começa com exame.

    • Três meses de acompanhamento sem evolução do quadro
    • Quatro consultas com a mesma prescrição
    • Nenhum pedido de exame complementar em todo o período
    • Paciente desistiu do serviço por falta de perspectiva de melhora

    O risco que ninguém está contabilizando

    O uso repetido e sem indicação precisa de antibiótico não é só ineficaz. É um problema de saúde pública com nome: resistência bacteriana.

    Quando um organismo é exposto ao mesmo antibiótico em ciclos sucessivos sem que haja a bactéria-alvo correta ou a duração adequada, as chances de desenvolver resistência aumentam. O medicamento que deveria curar deixa de funcionar, e não só para aquele paciente.

    Isso não é alarmismo. É o que a Organização Mundial da Saúde classifica como uma das maiores ameaças à saúde global. E começa, muitas vezes, exatamente assim: num posto de saúde, com uma receita repetida sem investigação.

    Protocolo ou improviso?

    Esta coluna não tem como afirmar, com base num relato isolado, que a conduta descrita representa um padrão sistemático do posto central de Santa Terezinha de Itaipu. Isso precisaria de apuração mais ampla, e a Secretaria Municipal de Saúde tem tanto o direito quanto a obrigação de esclarecer.

    Mas a pergunta precisa ser feita: existe, na rede municipal de atenção primária, algum protocolo que oriente os profissionais sobre quando solicitar exames complementares? Existe supervisão clínica dos casos que retornam sem melhora? Existe auditoria de prontuários?

    Se existe e não está sendo aplicado, é um problema de gestão. Se não existe, é um problema ainda maior.

    O paciente que desistiu

    Tem um detalhe nesse relato que merece atenção especial. O paciente não foi embora com raiva. Foi embora resignado. Convencido de que voltar ao posto não vai mudar nada.

    Esse é o dado mais preocupante de todos. Não o antibiótico. Não a falta de exame. É a perda de confiança no serviço público de saúde, construída consulta a consulta, receita a receita.

    Quando a comunidade itaipuense deixa de buscar o posto porque acredita que não vai adiantar, o sistema falhou. E não falhou por falta de recurso ou por excesso de demanda. Falhou porque alguém, em algum ponto da cadeia, não fez a pergunta mais simples da medicina: por que esse paciente não está melhorando?

    Alô, gestão municipal

    A Prefeitura de Santa Terezinha de Itaipu e a Secretaria de Saúde têm espaço aqui para responder. Se a conduta foi isolada e não representa o padrão do serviço, que digam. Se existe protocolo de revisão para casos sem resposta ao tratamento inicial, que apresentem. Se há supervisão clínica funcionando, que demonstrem.

    Esta coluna não veio para condenar. Veio para perguntar. E vai continuar perguntando enquanto a resposta não aparecer.

    Você conhece alguém que passou por situação parecida no posto central ou em outra unidade de saúde do município? Compartilha esse texto no WhatsApp da cidade e traz esse debate para onde ele precisa estar: na boca do povo e nos ouvidos de quem administra.

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    ✒️ Coluna sob responsabilidade do jornalista Gerson Cardoso

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