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Literatura e Memória: Como Escritores Reescrevem a História que Foi Apagada – Por Myriam Scotti

    Nos últimos anos, a literatura contemporânea tem procurado recontar a História ao se insurgir contra os discursos oficiais que, por anos, moldaram nossa imaginação e criaram a impressão de haver uma história única, o que é um erro e um perigo, como já expôs a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Penso que escrever ficção abre a possibilidade de se reinventar o passado, revelando perspectivas deixadas de lado pelo olhar de quem não tinha a intenção (ou o interesse) de contar uma história completa. Escrever pode se tornar, assim, um gesto de anarquivamento, no sentido de se rebelar contra o que por anos foi tido como a única verdade possível.

    Nesse movimento, Eliane Marques, no premiado Louças de família, revisita as heranças familiares para tensionar as camadas de silêncio que atravessam a memória e a formação social brasileira, revelando como a violência colonial permanece inscrita nas relações mais íntimas. Ao deslocar o olhar para aquilo que foi naturalizado, a autora expõe fissuras na narrativa histórica e nos convida a perceber o passado como uma matéria ainda em disputa. Já Geni Núñez, em Descolonizando afetos, propõe uma reflexão contundente sobre as formas pelas quais o colonialismo também organizou nossas maneiras de sentir, desejar e nos relacionar. Ao questionar afetos moldados pela lógica da dominação, a autora abre caminho para imaginar outras possibilidades de existência, baseadas na reciprocidade, no cuidado e na escuta. Ao desmontarem versões cristalizadas da História, ambas não apenas recuperam perspectivas silenciadas, mas também nos convocam a repensar o presente.

    À vista disso, minha escrita tenta, igualmente, abrir brechas para outras sensibilidades, isto é, para afetos que escapam às normas coloniais e patriarcais e afirmar a potência da narrativa como espaço de reinvenção do passado e, sobretudo, do futuro. Em minha mais recente obra, Sol abrasador prepara solo fértil – contos, não escrevo para repetir fatos, mas como tentativa de dar voz a quem deixamos de escutar ao longo da História, ou seja, para escutar silêncios: da terra, dos corpos, das histórias que insistem em permanecer soterradas. O passado, nas minhas narrativas, não é um arquivo morto; ele é terreno fértil. De modo que penso a escrita como deslocamento. Aliás, não só a escrita, mas sobretudo, a leitura. Afinal, me desloco do meu lugar enquanto escrevo, bem como os leitores se deslocam no momento em que mergulham na história e se permitem a fruição, aquela sensação incrível de quando nos sentimos parte da história, do texto, quando esquecemos o tempo e o espaço presente.

    Na verdade, trata-se de um processo de alteridade e compartilhamento que ocorre entre escritor e leitor, mas principalmente um gesto de alteridade com o mundo ao redor, pois depois de uma extenuante escrita ou de uma leitura exigente, já não voltamos os mesmos para o mundo nem para as pessoas com quem convivemos. Reinventar o passado, portanto, não é repetir o que já está nos registros oficiais, mas reescrevê-lo a partir de outras perspectivas. Pois o passado, como nos é contado, nunca nos chega inteiro: é fragmentado, é falho e a literatura está aí para quem se dispuser a reinventá-lo.

    Escrever não é arquivar o passado, mas desorganizá-lo

    Essa reflexão se conecta ao conceito de anarquivamento, do crítico literário Márcio Seligmann-Silva. Ele fala em recolecionar as ruínas dos arquivos e reconstruí-las de forma crítica. Para ele, os artistas (ainda que seu artigo se referisse à arte visual) abrem esses arquivos à anarquização, possibilitando que nos apropriemos deles de modo criativo. Pensando isso na literatura, percebo que escrever é também um gesto de anarquivar: não apenas resgatar memórias, mas desorganizá-las, inscrevendo-as de novo para que falem de outro modo. É nesse ponto que a metáfora da terra, tão presente na minha obra, se ilumina. Revolver a terra é revolver o arquivo: abrir camadas, deixar escapar cheiros, lembranças, vozes. É um gesto ao mesmo tempo violento, porque abre feridas; e vital, porque desse mesmo chão germina a possibilidade de vida nova, de se contar outras histórias.

    Nos contos de Sol abrasador prepara solo fértil, esse gesto aparece como fragmentos de arquivo: pequenas histórias individuais e coletivas, restos de experiências que, ao serem recolhidos, se insurgem contra o apagamento. Escrever, assim, é anarquivar e reinventar; é insurgir contra os discursos oficiais que pretendem encerrar o passado em uma versão única. Minha escrita busca abrir brechas para outras sensibilidades, para afetos que escapam às normas coloniais e patriarcais. Nesse sentido, reinvento o passado porque a vida contemporânea exige outras narrativas. É esse gesto que me move: revolver a terra da memória para que dela brotem vozes, afetos e histórias capazes de reconfigurar o presente. Como Roland Barthes dizia, a língua precisa deixar de estar a serviço de um poder para, acima de tudo, estar a serviço da humanidade. Penso que sou uma escritora teimosa porque tento, por meio da escrita literária, me deslocar dos discursos que me cercam.

    *Myriam Scotti nasceu em 1981, em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (editora Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (editora Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de “Sol abrasador prepara solo fértil“ (editora orlando, 2025, 136 págs.)

    Crédito da imagem: Divulgação / Myriam Scotti. Legenda: escritora Myriam Scotti, autora do livro Sol abrasador prepara solo fértil, em foto de divulgação.

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    Equipe Blog do Lago

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