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Bíblia Católica vs Protestante: Por Que Tem Mais Livros?

    Pegue uma Bíblia católica e uma protestante lado a lado e a diferença de espessura salta aos olhos. A católica tem 73 livros, a protestante, 66. Sete a menos. A explicação popular, “os católicos adicionaram livros”, está historicamente invertida: o que aconteceu foi o oposto.

    Quais são os sete livros em disputa

    Os livros presentes na Bíblia católica e ausentes da maioria das Bíblias protestantes são: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruque, e 1 e 2 Macabeus, além de trechos adicionais em Ester e Daniel. A Igreja os chama de deuterocanônicos (“segundo cânon”, reconhecidos formalmente numa segunda etapa histórica), enquanto tradições protestantes os chamam de “apócrifos”.

    De onde vêm: a Septuaginta, não um capricho católico

    No século III a.C., judeus da diáspora em Alexandria traduziram as Escrituras hebraicas para o grego, produzindo a chamada Septuaginta (ou versão dos Setenta). Essa tradução grega incluía os sete livros em questão. Era essa versão, a Septuaginta, que circulava amplamente entre os judeus de língua grega e que os primeiros cristãos, incluindo os apóstolos, usavam como sua Bíblia de referência no dia a dia.

    O ponto central: os apóstolos citavam a versão que tinha esses livros

    Este é o argumento decisivo do lado católico: quando os autores do Novo Testamento citam o Antigo Testamento, na esmagadora maioria das vezes estão citando a Septuaginta, não o texto hebraico estrito. A Igreja simplesmente manteve o cânon que a comunidade cristã primitiva já usava, ela não “acrescentou” nada num momento posterior.

    O Sínodo de Jâmnia: por que o cânon judaico ficou menor

    Depois da destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C., rabinos reunidos no que ficou conhecido como Sínodo de Jâmnia (final do século I d.C.) formalizaram um cânon judaico restrito ao hebraico e ao aramaico, excluindo os textos que só existiam em grego. Esse critério linguístico, definido depois da era apostólica e sem qualquer autoridade sobre a Igreja cristã, é a origem do cânon hebraico de 39 livros que os reformadores protestantes adotariam mais tarde.

    Como o cânon católico foi confirmado, não inventado

    A lista de 46 livros do Antigo Testamento (incluindo os sete deuterocanônicos) e 27 do Novo Testamento aparece confirmada em concílios muito anteriores à Reforma Protestante: os Concílios de Hipona (393) e Cartago (397), depois reafirmados em Florença (1442) e, só então, no Concílio de Trento (1546), como resposta direta à contestação protestante. Trento não criou o cânon, reafirmou o que a Igreja já reconhecia havia mais de um milênio.

    Veja também: Dogma, Doutrina e Tradição: Qual é a Diferença Real

    Por que Martinho Lutero rejeitou esses sete livros

    No século XVI, Lutero optou pelo cânon hebraico mais restrito, alinhado ao critério de Jâmnia. Há também um motivo teológico apontado por historiadores: alguns dos livros deuterocanônicos sustentam diretamente doutrinas católicas que Lutero rejeitava, como a oração pelos mortos, presente em 2 Macabeus 12:46, associada à doutrina do Purgatório. É importante ser honesto quanto à cronologia aqui: Lutero, na sua tradução alemã de 1534, ainda incluiu os sete livros, só classificados como de leitura útil, mas não canônicos. A exclusão total e definitiva desses livros das edições bíblicas protestantes só se consolidou de forma generalizada no século XIX.

    E as Igrejas Ortodoxas, ficam de fora dessa discussão?

    Não. As Igrejas Ortodoxas orientais (grega, russa, copta, siríaca) também usam os deuterocanônicos, algumas incluindo até livros adicionais que nem católicos nem protestantes reconhecem. A divisão de 66 x 73 livros é, na prática, uma questão entre a tradição protestante e o restante do cristianismo histórico, não católicos “contra todo mundo”.

    Perguntas frequentes

    Os deuterocanônicos foram adicionados no Concílio de Trento?

    Não. Já estavam no cânon confirmado nos Concílios de Hipona (393) e Cartago (397), mais de mil anos antes de Trento (1546), que apenas reafirmou solenemente o que já era aceito.

    O Novo Testamento cita algum livro deuterocanônico?

    Existem paralelos conceituais e de linguagem, como entre o livro da Sabedoria e a Carta aos Hebreus, embora não sejam citações diretas no mesmo formato de outras referências ao Antigo Testamento.

    Todas as Bíblias protestantes rejeitam os sete livros da mesma forma?

    A maioria das edições protestantes modernas os omite completamente, mas algumas tradições, como a anglicana, historicamente os mantêm como leitura edificante, sem status de Escritura plena.

    É verdade que os judeus rejeitaram esses livros desde sempre?

    Não de forma unânime. Judeus da diáspora, como os da comunidade etíope, seguiram por séculos um cânon equivalente ao católico. A exclusão formal veio de um grupo específico, no Sínodo de Jâmnia, já depois do início do cristianismo.

    Equipe Blog do Lago – Imagem gerada por IA

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